‘Estou curada!’

Vocês lembram da Milene Voigt? Aquela mulher linda, forte e otimista que entrevistamos em outubro de 2016? Ela nos contou com muita firmeza que havia recém descoberto um câncer de mama. Escolhemos o Dia Internacional da Mulher para bater um papo com ela novamente. Por que? Porque ela está ainda mais linda, muito mais forte e curada. Não conseguimos imaginar pessoa melhor para homenagear todas as mulheres no dia de hoje. Sejam saudáveis ou vítimas de alguma enfermidade. A história e a mensagem da Milene servem para todas (e todos) nós. Boa leitura e Feliz Dia da Mulher!

Quais foram os seus primeiros passos após a descoberta do câncer, Milene, e como foi o início do seu tratamento?

Quando você descobre uma doença dessas você não sabe a quem recorrer. Eu liguei primeiro pra minha Ginecologista, que me encaminhou para o Mastologista. Mas na verdade eu deveria ter ido direto ao Oncologista. Nos primeiros três meses foram vários exames, vários tipos de diagnósticos. Você faz punção, espera o resultado para saber o tipo de câncer, se é ou não de fato um câncer. Para saber que tipo de medicação vai tomar. Neste momento se opta pela quimioterapia antes ou depois da cirurgia. Decide se tira uma mama, tira as duas, faz um quadrante. Define a técnica a ser usada e qual profissional vai te acompanhar. Enfim. Eu optei por tomar a medicação antes, o que foi bom. Fiz tantos exames que descobri os linfonodos. Se eu tivesse optado pela cirurgia estética primeiro, talvez tivesse ficado com problemas nos linfonodos, que precisam ser tratados em tempo.

Como foi pra você o processo de quimioterapia?

Os primeiros 21 dias de quimioterapia vermelha chegaram e ouvi coisas muito impactantes. Fiquei assustada. Dizem muitas coisas pra você. Que vai passar mal, que o cabelo vai cair. Cada um tem uma história de horror para contar. Ouvi muitas coisas desnecessárias, mas tanta gente boa apareceu na minha vida para ajudar, dar apoio, orar. Recebi tanta energia pura nessa hora que o processo correu sem todo o terror para o qual havia me preparado.

A questão da vaidade não te afetou?

Num primeiro momento optei por um tratamento que evita a queda de cabelo. Há uma toca congelada que tem este propósito. Mas é tão desagradável usar aquele capacete pesado. São duas horas de medicação com aquilo pesando na cabeça. Depois vêm as dores de cabeça. Não podia lavar o cabelo, nem usar secador. Isso tudo me incomodou muito. Então resolvi aceitar minha dificuldade e decidi lidar com ela. Minha preocupação maior era meu filho. Ele iria me ver careca da noite para o dia. Aceitei a sugestão de uma amiga e levei meu filho comigo para cortar o cabelo. Foi ótimo, ele raspou meu cabelo e ficou tudo bem. Em novembro eu estava sem cabelo e sem problemas maiores como isso. Sofri preconceito, mas lidei com ele. Aliás: vale lembrar aqui que careca e câncer não pegam!

No aspecto físico, como você ficou com o tratamento?

Em nenhum momento passei muito mal ou tive dificuldade de locomoção ou alimentação. Tive sorte e recebi bom tratamento. Perdi o apetite e consequentemente perdi peso, 9 quilos. Mas fiquei determinada e segui adiante. A coisa foi bem natural. Cuidei bastante da imunidade, o que é importante, mas foi tranquilo isso. Optei por tomar a medicação por cateter, é mais fácil do que na veia. Eram ciclos de 21 dias de tratamento, exames e medicação.  Não é um processo fácil, mas tive coragem. Não sei bem de onde tirei tanta coragem (silêncio).

Você não fez radioterapia?

A radioterapia eu optei por não fazer. Por mais que o médico te guie, a escolha do que fazer com a sua vida é sua. Algo me disse para não fazer. Estava com a documentação preenchida e dentro da clínica, mas optei por não fazer.

E a cirurgia?

Em março de 2016 fiz a primeira cirurgia. Mastectomia total bilateral. Tirei tudo. Coloquei 470 ml de prótese. Os linfonodos foram cortados, mas não esvaziei. A cirurgia foi tranquila, num primeiro momento, mas tive retração de prótese seroma. No dia 14 de setembro fiz outra cirurgia. No mesmo local. Troquei a prótese por uma de 560 ml. Foram mais 10 dias de dreno, recuperação, fisioterapia, enfim, cuidados. Mas apesar de todos os cuidados, tive retração novamente e fiz nova cirurgia dia 3 de novembro. A primeira foi para retirada das mamas, mas a segunda e terceira foram mais estéticas. Corretivas. Agora está tudo bem, tudo tranquilo. Em janeiro deste ano tive alta do Oncologista. Agora em março do cirurgião plástico. E já estou de alto do Mastologista. Estou curada! Posso pegar sol, dirigir, sair. Posso viver. Tive um período com limitações, sim, mas agora tenho uma vida normal. E nunca duvidei disso, mas aprendi a dar valor para outras coisas. Coisas mais importantes.

A rotina do tratamento é difícil. Foi complicado ficar sem trabalhar e mexer em toda a sua vida?

Na primeira consulta falei pro Oncologista: não vou ficar sem trabalhar, eu vou dar conta, vou tentar conciliar tudo. Isso foi na primeira quimioterapia. Na segunda já pensei que não iria dar, porque você acaba não sendo produtiva no trabalho. Nos primeiros meses você fica meio perdida, sua rotina acabou, você não sabe o que fazer, acha que no escritório as pessoas não vão dar conta sem você. Depois percebe que nada disso é verdade, tudo é da sua mente, ninguém é insubstituível. Tudo se ajusta. É Uma fase de adaptação na família, no escritório, com o filho. Mas o ‘ficar em casa’ é uma parte necessária pra você pensar no que você quer. Ajuda a curar e ficar mais à vontade com o tratamento. Tem que inventar coisas para fazer. Quando você está bem, beleza, mas quando está com dreno, complica um pouco. Houve momentos mais delicados. Algumas noites eu dormi amarrada para não mexer os braços e estragar a cirurgia (silêncio). Depois disso você vê que tudo passa. A gente faz tanto drama na vida para nada. As coisas passam, vai ter uma solução pra frente. Pelo menos foi assim comigo.

Como será o pós-tratamento?

Agora, nesta primeira fase pós-alta, nós acompanhamos de 3 em 3 meses, fazendo exames laboratoriais. Vai ser feito ressonância e mamografia, pra ver como fica a situação. Tem que acompanhar eternamente. E fiquei com algumas sequelas pelo tipo de câncer, como disfunção menstrual. Fiquei um período sem menstruar, agora que voltou precisa ser controlada, mas nada que eu não resolva em algum momento.

Na sua opinião, o que te curou tão rapidamente?

(Pausa) A quimioterapia me curou. Mas o que me ajudou a garantir a eficácia dela foi aceitar que o diagnóstico de uma doença séria não é sentença de morte. Não ter medo. Morrer todos iremos um dia, então até lá olhe pra frente. Neste momento é muito importante o apoio da família, todo mundo “pegar junto”. Tem também os amigos, que nunca me abandonaram …. todas as orações que recebi. Fiz cirurgia espírita. Muitas pessoas me deram muito apoio. Um fator determinante é a escolha dos profissionais que vão cuidar e você. No início não fiz uma escolha muito adequada, depois me ajustei, quando encontrei com a dra. Grazi, que é Oncologista da Clínica da Neoplasia, e o dr. Jorge Rebelo, meu Mastologista, o dr. Alexandre, meu cirurgião plástico. De todos eles tive muito apoio, muito carinho. Parecia que eu estava indo fazer um happy hour, o atendimento era maravilhoso. Não sentia a doença em si. Mais isso porque sei que para enfrentar essa doença ou qualquer outra coisa na vida, se você se colocar de coitadinha, tudo vai ser muito mais difícil. Então é pensar: “Bicho, não estou muito legal, mas vou tomar esta medicação que vai me baquear dois ou três dias, mas nada que vá me derrubar”. É isso!

Você tem medo de passar por isso novamente?

Medo? Não! Medo da doença voltar? Não! Pode acontecer. Tenho medo, sim, de não encontrar as pessoas que encontrei da primeira vez. Elas me deram muito suporte. Se ela voltar é pra ser. Vou lidar com ela mais uma vez e pronto! A gente não tem ação sobre o que é inevitável, mas podemos cuidar da saúde e dos pensamentos. Lembre-se: o câncer é muito emocional, pelo menos o meu.

O que mudou na sua vida, Milene?

Mudou tudo pra mim. O que eu dava valor antes não é mais tão importante. Tenho me feito sempre uma pergunta: O que de fato importa? Essa é a questão!

Que mensagem você deixa para quem está passando por uma dificuldade como a que você enfrentou?

Aceite sua situação com o coração aberto. Oriente-se e trate-se com bons profissionais e peça ajuda para o corpo, mente e também para a alma. Lide com a doença. É difícil, mas o alto astral ajuda na cura. E não deixe a feminilidade (vaidade saudável) de lado. Saia de casa. Divirta-se, você está viva. Esta oportunidade é única. (pausa) Aproveite-a da melhor maneira possível.

 

Confira a primeira entrevista aqui

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