‘O câncer nasce na alma’ – Entrevista com Milene Voigt, uma das milhares de mulheres com câncer de mama no Brasil.

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A última segunda-feira do Inverno de 2016 estava bem comum e maçante até 16h, quando encontramos com a mãe do Dimitri na confeitaria Bella Catarina, em Balneário Camboriú. A pauta era séria, dramática para muita gente, mas em poucos minutos ganhou ares mais leves e até surpreendentes. Com um largo sorriso no rosto – típico dela –, Milene Voigt recebeu a reportagem da Anjos do Lar para falar sobre o câncer de mama que descobriu há quase seis meses. Em pouco mais de uma hora de conversa esta mulher direta e divertida de 38 anos mostrou que não gosta de dramatizar sua condição, mas a respeita. Apesar de consciente dos desafios que têm pela frente na luta contra a doença ela não desanima e pede o mesmo aos amigos e familiares. Confira neste bate-papo como nossa amiga Milene lida com essa batalha que não é só dela, mas de milhares de mulheres que protagonizam a campanha Outubro Rosa. Respire fundo, confira e reflita!

Anjos do Lar: O que passa pela cabeça no momento em que se recebe o diagnóstico de câncer?

Milene Voigt: Morte. Desespero. A primeira coisa que você faz é contar para alguém. Eu contei pra minha irmã Aline. Aí então fui confirmar se era câncer mesmo. O diagnóstico veio, era câncer. Então respirei fundo e fui me tratar. É preciso encarar porque tem cura, tem solução. Quando se descobre cedo, tem cura.

Anjos do Lar: Você descobriu sozinha, pelo autoexame, ou detectou pela mamografia?

Milene Voigt: Descobri sozinha, através de autoexame feito após o banho. No ano anterior, havia feito mamografia, mas, ainda assim, de um dia para o outro, passando óleo no meu corpo, senti um nódulo. Pensei: será que meu filho me bateu durante a noite? Não. Era câncer. Isso foi numa quinta-feira e na segunda-feira seguinte fiz os exames para confirmar. Em apenas três meses eu estava na quimioterapia. Foi tudo muito rápido porque ele começou a se movimentar neste meio tempo, o que exigiu agilidade.

Anjos do Lar: Você tinha uma rotina de exames preventivos? Com que frequência ia ao médico e que exames costumava realizar?

Milene Voigt: Sempre fiz todos os exames preventivos indicados. Ano após ano. Nunca fui relapsa com isso. Mas, pelo visto, tinha que ser assim. Foi meu ‘presente de aniversário’ deste ano. Descobri a doença na semana do meu aniversário, naquele feriado de 21 de abril. A princípio, havia a intenção de fazer com urgência a cirurgia de remoção bilateral das mamas, mas nos dois meses em que fiz os exames pré-operatórios o câncer andou, saindo da mama para os linfonódulos, aí então optamos por segurar a cirurgia e fazer o tratamento antes. Depois do tratamento vou fazer a cirurgia de remoção total das duas mamas como medida preventiva. Vou colocar prótese nas duas. A recuperação é ruim, mas sei que ali nunca mais terei nada e posso seguir minha vida.

Anjos do Lar: Há histórico de câncer na família? Seja de mama ou não?

Milene Voigt: Temos na família um caso de câncer de mama com minha avó paterna, que removeu a mama aos 82 anos. A questão é que a relação com a avó paterna não tem muito impacto genético no meu caso. O problema seria se fosse com minha avó materna. Na família da minha mãe há caso de câncer também, mas não de mama.

Anjos do Lar: Há quem diga que câncer é a tristeza das células. Isso faz sentido para a sempre alegre Milene?

Milene Voigt: (Pausa). Então. Eu acho que cânceres são coisas que a gente guarda. Palavras não ditas, emoções não compartilhadas. Coisas que a gente vai aguentando no decorrer da vida da gente que nos fazem ficar triste. Isso causa câncer. Quando você não se abre e guarda tudo pra si, se achando a dona do mundo, achando que é forte e tudo vai passar, que está tudo bem, a doença nasce. Se você não se abre, não compartilha seus sentimentos e angústias, não trata seu emocional, a dor reverbera em você de alguma forma, virando mágoa e depois câncer. No meu caso houve o impacto da separação, que me deixou sozinha com um filho pequeno. Aí veio o julgamento da família…dos amigos. As críticas. As pessoas não sabem o que está passando pela sua cabeça e, muitas vezes, dizem coisas que magoam profundamente. Quando você não lida bem com isso, não busca ajuda, pode desencadear a doença. Tenho certeza que a doença é emocional. E, no meu caso, de mama, a doença me parece estar totalmente associada a esta relação homem-mulher.

Anjos do Lar: A palavra ‘morte’ ronda os seus pensamentos? Você sente medo?

Milene Voigt: Não. Pensei nela apenas no momento em que descobri a doença. Hoje não.  De câncer eu não vou morrer. Pelo menos não de mama e não agora. O pensamento de morte está bem longe de mim. Não vejo isso. Não sinto isso. Não me sinto doente. Não sinto a morte. Não sinto medo. A princípio, aquela palavra assustadora (câncer) me apavorou. A palavra maldita que muita gente nem pronuncia. A verdade é que a morte vai acontecer para todo mundo, mas a minha não está associada a esta fase que estou passando hoje. Tenho certeza.

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Anjos do Lar: Você está demonstrando muita confiança e naturalidade. De onde vem toda essa força?

Milene Voigt: Do crescimento. A gente tem que entender e aceitar nossa condição neste momento. A primeira coisa que devemos fazer é aceitar, depois devemos entender que por alguma razão temos que passar por isso. Aí então, devemos passar pela doença com muita força. A força precisa ser sua, interior. Todos fazem a sua parte, a família, os amigos, mas a grande força é sua. É preciso levantar a cabeça e fazer o tratamento sem depressão e tristeza. Sem ‘mimimi’. Eu sempre fui assim, com tudo. Não é diferente agora. O que tem que ser tem que ser.  Vamos encarar. Vai doer, vai ficar careca, vai passar por um processo, vai ficar um tempo em casa, mas é isso. Sem drama!

Anjos do Lar: Qual o papel da sua família neste processo e como estão lidando com tudo?

Milene Voigt: Para a minha família foi um pouco mais difícil. Eles ficaram mais impactados do que eu. Sentiram bastante. Eu não me sinto doente, não vejo a doença, não tenho dor ou mal-estar… estou bem, apesar de um pouco mais abatida. Isso me fez e me faz lidar melhor com tudo. Mas agora eles estão melhores, lidando mais tranquilamente com todo o processo. Estão otimistas e me dando muito apoio. Ninguém está depressivo lá em casa.

Anjos do Lar: Seu filho Dimitri tem apenas 4 anos. Ele está ciente do processo? A relação de vocês mudou com a doença?

Milene Voigt: A primeira coisa que pensei quando descobri foi: como vou fazer para tirar o Dimitri da minha cama (rss)? Afinal, eu teria que operar e não poderia dormir com ele. Aí então comecei a explicar que a mamãe tinha uma bolinha no peito e que teria que tirá-la. Ele me fez perguntas. No fim das contas, ele entendeu que a mamãe estava doente, que tinha um cateter no peito que ele chama da ‘cateta’. Ele entendeu que esse cateter leva remédio para o corpo e que a mamãe fica meio abatida às vezes em função disso. Mas não escondemos nada dele. Na verdade, as pessoas descobrem que você tem câncer por causa da careca. Se não fosse isso, nem saberiam. Uma das minhas preocupações com relação a ele era não traumatizá-lo quando ficasse careca. É um impacto para qualquer um, imagine para uma criança! Aí me veio a ideia. Decidi que ele iria cortar meu cabelo. Decidi fazer de uma forma lúdica para que ele participasse do processo desde o início. A questão ali era não fazer com que ele sentisse medo da mamãe dele simplesmente pelo fato de ela ser diferente das outras mamães. Aí fomos ao shopping, ele cortou o cabelo dele e depois passou a máquina no meu. Ele detonou o meu cabelo (rsss). A alegria dele foi incrível. Resumindo, ele está sabendo de tudo e lidando com muita naturalidade.

Anjos do Lar: O câncer, especialmente o de mama, é particularmente cruel com as mulheres, uma vez que além do sofrimento que causa afeta também a autoestima. Como foi pra você ficar careca e como lida com o fato de perder a mama?

Milene Voigt: Eu não tenho problema com isso. Não tenho problema com o que os outros pensam sobre mim. E olha que quando saio na rua as pessoas olham, julgam. Eu prefiro sair careca do que usar lenço. Acho que o lenço dá a ideia de fragilidade. Tentei, num primeiro momento, usar aquela toca que mantém os cabelos. Mas não deu. Era incômoda e trabalhosa. Aí então aceitei minha condição e fiquei careca. E vamos lá (rss)! Vamos colocar brinco, batom e tudo mais. Quem quiser olhar e julgar, fique à vontade. Sobre tirar as mamas e usar prótese, sem problemas também. Até gosto da ideia de ficar com os peitos lindos (rsss). Tenho algum receio do pós-operatório, mas só isso.

Anjos do Lar: Você conversa com outras pacientes sobre o momento que estão vivendo? Como as mulheres estão lidando com o câncer hoje em dia? Você acha que há muito medo ainda?

Milene Voigt:  O lugar onde faço quimioterapia é ótimo. As meninas são legais, tentam nos animar. Há sempre psicólogos no local. É bem tranquilo pra mim. Vejo que algumas pessoas sofrem mais do que eu porque não podem usar o cateter. Receber a medicação na veia é complicado, é muito agressivo. Acaba sendo mais dolorido e pode causar náuseas e vômito. Fora isso, vejo que há muito drama e problema de estima por conta da careca. Também vejo muita gente dando vazão à carência que já tem por conta do câncer. Afinal, quem não quer dar colinho para alguém com câncer? Mas é muito difícil pra mim julgar, pois não sinto nada disso e sou naturalmente uma pessoa otimista e descompromissada com o êxito.

Anjos do Lar: A rotina médica é muito complicada? Descreva.

Milene Voigt: Apesar de estar me sentindo muito bem, tive que me afastar do trabalho durante o tratamento. Ficarei 16 meses fora. É complicado conciliar a rotina de exames, consultas e quimioterapia com o trabalho. Hoje, faço um exame de sangue, uma consulta médica e uma sessão de quimioterapia a cada 21 dias. Não tomo nenhum outro medicamento fora da quimioterapia, mas preciso ficar em observação mesmo assim depois do procedimento. A quimioterapia vermelha acaba no fim do ano, a branca em abril do ano que vem, quando farei a remoção, mas terei que me tratar por 2 anos ao todo.

Anjos do Lar: Como você avalia o atendimento médico na região?

Milene Voigt: Minha experiência é extremamente positiva. Estou fazendo quimioterapia na Neoplasias Litoral e estou bem satisfeita. Tenho tudo ao meu alcance em Balneário Camboriú e Itajaí com meu plano de saúde. Não preciso sair daqui para nada. Acompanhei uma amiga que está se tratando pelo Unacon e vi que não é igual. Mas não posso avaliar o SUS.

Anjos do Lar: Apesar de estar no início do tratamento, tem conhecimento sobre as várias possibilidades de tratamento alternativo? Como as avalia?

Milene Voigt: Estou fazendo exatamente o que o médico manda em termos de tratamento, mas estou cuidando do lado espiritual também, pois como já disse, o câncer nasce na alma.  Mas uma coisa não exclui ou atrapalha a outra. Acho que fortalecer a fé ajuda no tratamento. Já fiz quatro cirurgias espíritas e sinto que elas me ajudaram muito. Fora isso não experimentei nada.

Anjos do Lar: Que hábitos de vida você mudou em função do diagnóstico e como está sendo essa mudança na sua cabeça e organismo? Alimentação, exercícios, vida social, enfim.

Milene Voigt: Muita coisa muda, mas na cabeça. A gente tem que mudar, né?! A forma como você vê as coisas e a qualidade dos seus pensamentos mudam bastante. É bom passar a ver quantas coisas boas a gente tem e nem percebia. Eu estou em casa, cuidando das minhas coisas, do meu filho, passando mais tempo com minha família. Isso faz pensar muito. Mas, fora isso e o afastamento do trabalho, minha vida está igual. Inclusive a alimentação, que era boa. Não estou me privando de quase nada, vida normal. Não tomo sol por causa da medicação, que pode causar queimadura interna, mas só isso.

Anjos do Lar: A bela Milene Voigt será a mesma depois de encerrar essa batalha?

Milene Voigt: Não (silêncio). Não tem como. Vou ser bem melhor! Quando se passa pelo que estou passando você enxerga tanta coisa boa na vida. Você percebe que se incomoda com coisas pequenas, mediocridades. Você descobre que o que interessa mesmo, o que faz sentido, é sua família, seu filho e seus amigos. O resto é resto! A gente corre atrás de tanta coisa sem necessidade, achando que precisa disso e daquilo. Pra quê? Você precisa estar bem! Não tem como passar por esta fase sem um grande aprendizado. E imagino que o aprendizado seja ainda maior para quem sente dor, passa mal e não tem plano de saúde. Eu saí da zona de conforto e mudei meus objetivo. Minha vida parou e vai recomeçar. E acho que tudo tem um porquê. Penso que isso tudo veio para que eu parasse um pouco o que estava fazendo para repensar valores e prioridades. Corremos muito, tentamos agradar a todos e esquecemos de nós. Pra quê? Não. Não vou entrar nessa e sair da mesma forma.

Anjos do Lar: Que mensagem você gostaria de deixar a outras pacientes ou a qualquer pessoa que vai ler esta entrevista?

Milene Voigt: É preciso ser forte! Entenda que você tem um problema e vai superá-lo, se for do seu merecimento. Não será fácil, pode haver algum sofrimento e desconforto, mas vamos tocar a bola pra frente sem reclamar tanto da vida. Sem perguntar o tempo todo ‘por que comigo?’. Pense que você precisa deste aprendizado. Não se veja como vítima, como coitadinha. Pense que isto pode acontecer com qualquer pessoas e o único jeito é encarar. Aceitar torna o processo mais fácil e isso serve para qualquer outra dificuldade. Não faça drama nem se sinta diferente. Levante a cabeça e cuide da qualidade dos seus pensamentos e palavras, pois a mente é quase mais forte que o tratamento em si. E lembre-se: se você ficar fechada num quarto chorando a doença não vai embora. Portanto, levante a cabeça, sacuda a peruca e vamos encarar tudo com pensamento positivo!

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Fotos: Fernanda Arruda

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